quinta-feira, 23 de março de 2017

"Quem sou eu?" por Dietrich Bonhoeffer

Este poema foi escrito por Dietrich Bonhoeffer na prisão militar de Berlim-Tegel na correspondência em julho de 1944, destinada ao seu amigo Eberhard Bethge. Bonhoffer foi detido em março de 1943, e enforcado 9 de abril de 1945. E em 7 de maio de 1945 a guerra chegou ao fim.

Quem Sou Eu?

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que saio da minha cela
tão sereno, alegre e firme
qual dono de um castelo.

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que da maneira como falo
aos guardas, tão livremente,
como amigo e com clareza
parece que esteja mandando.

Quem sou eu? Também me dizem
que suporto os dias do infortúnio
impassível, sorridente e com orgulho
como alguém que se acostumou a vencer.

Sou mesmo o que os outros dizem de mim?
Ou apenas sou o que sei de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente,
como um passarinho na gaiola,
sempre lutando por ar, como se me sufocassem,
faminto de cores, de flores, às vezes de pássaros.
Sedento de palavras boas, de proximidade humana,
tremendo de ira a respeito da arbitrariedade
e ofensa mesquinha,
nervoso na espera de grandes coisas,
em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio até para orar, para pensar, para produzir,
desanimado e pronto para me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou porventura tudo ao mesmo tempo?
Perante as pessoas um hipócrita?
E um covarde, miserável diante de mim mesmo?
Ou será que aquilo que ainda em mim perdura,
seja como um exército em derradeira fuga,
à vista da vitória já ganha?

Quem sou eu?
A própria pergunta nesta solidão
de mim parece pretender zombar.
Quem quer que sempre eu seja,
tu me conheces, ó meu Deus,
sou teu.


Manuscrito do poema "Quem sou eu?"

Bonhoeffer escreveu vários livros. Dentre eles, alguns em português:
  • Discipulado
  • Vida em Comunhão
  • Resistência e Submissão
Dietrich Bonhoeffer. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p.468-469.
Imagem: http://lendobonhoeffer.blogspot.com.br/2016/05/quem-sou-eu.html

domingo, 19 de março de 2017

Uma breve história da Igreja Moraviana

Por quase cinco séculos a Igreja Moraviana proclamou o evangelho em todas as partes do mundo. Sua influência excedeu numericamente por ter cooperado com cristãos de todos os continentes e ter sido uma parte visível do Corpo de Cristo, a Igreja.

Orgulhosa de sua herança e firme em sua fé, a Igreja Moraviana ministra às necessidades das pessoas onde quer que eles estejam. O nome Moraviano identifica o fato de que a história da igreja tem sua origem na antiga Boêmia e Morávia que atualmente é a Republica Checa. Em meados do século IX esses países se converteram ao cristianismo principalmente através da influência de dois missionários gregos ortodoxos, Cyril e Methodius. Eles traduziram a bíblia para o idioma comum e introduziram ao ritual da igreja nacional. Nos séculos seguintes, Boêmia e Morávia gradualmente caíram sob a jurisdição eclesiástica de Roma, mas alguns dos povos checos protestaram.


O principal dos reformadores Checos, John Hus (1369-1415), foi um professor de filosofia e reitor da Universidade de Praga. A Capela de Belém em Praga, onde Hus pregava, se tornou um lugar de reunião para os reformadores Checos. Ganhando apoio dos estudantes e das pessoas comuns, ele liderou um movimento protestando contra muitas práticas do clero e hierarquia Católica Romana. Hus foi acusado de heresia, sofreu um longo julgamento no Conselho de Constança, e foi queimado na fogueira em 6 de julho de 1415.

Organizado em 1457

O espírito da reforma não morreu com Hus. A Igreja Moraviana ou Unitas Fratrum (Irmãos Unidos), como tem sido conhecido oficialmente desde 1457, surgiu como seguidores de Hus, reunidos na aldeia de Kunvald, cerca de 160 quilômetros a leste de Praga, na Boêmia oriental, e organizaram a igreja. Isso foi 60 anos antes de Martinho Lutero começar a reforma e 100 anos antes do estabelecimento da Igreja Anglicana.

De acordo com Gregory, o Patriarca, considerado o fundador do Unitas Fratrum, o que fez um cristão não era a doutrina ou o que ele ou ela acreditava, mas que uma pessoa viveu de acordo com os ensinamentos de Jesus Cristo. Ele descreveu esses primeiros moravianos como “pessoas que decidiram de uma vez por todas, serem guiados somente pelo evangelho e exemplos do nosso Senhor Jesus Cristo e seus santos apóstolos em generosidade, humildade, paciência, e amor com os nossos inimigos.” (Rican, História da Unidade)

Até 1467 a Igreja Moraviana, estabeleceu seu próprio ministério, e nos anos seguintes, três ordens de ministério foram definidos: diáconos, presbiterianos e bispos.

Crescimento, Perseguição e Exílio

Até 1517 a Unidade de Irmãos numerava pelo menos 200,000 com mais de 400 paróquias. Usando um hinário e catecismo próprio, a igreja promoveu as Escrituras através de duas prensas de impressão e providenciou paras as pessoas de Boêmia e Morávia com a bíblia na seu próprio idioma.

Uma amarga perseguição, que estourou em 1547, levou à expansão da igreja dos irmãos para a Polônia onde cresceu rapidamente. Até 1557 havia três províncias da igreja: Boêmia, Morávia e Polônia. A Guerra de trinta anos (1618-1648) trouxe mais perseguição à Igreja dos Irmãos, e os protestantes da Boêmia foram severamente derrotados na batalha das montanhas brancas em 1620.

O líder principal das Unitas Fratrum nesses anos tempestuosos foi o Bispo John Amos Comenius (1592-1670). Ele se tornou mundialmente conhecido por suas visões progressistas de educação. Comenius viveu a maior parte de sua vida em exílio na Inglaterra e na Holanda onde morreu. Sua oração foi que algum dia as “sementes escondidas” da sua amada Unitas Fratrum mais uma vez floresça para uma nova vida.

Renovado em 1700

O século XVIII viu o renovo da Igreja Moraviana através do patrocínio do Conde Nicholas Zinzendorf – jovem Ludwig Von Zinzendorf, um nobre pietista na Saxônia. Algumas famílias moravianas fugindo da perseguição na Boêmia e Morávia encontraram refúgio na propriedade de Zinzerdorf em 1722 e construíram a comunidade de Herrnhut. A nova comunidade se tornou um refúgio para muitos outros refugiados moravianos.

Conde Zinzerdorf os encorajou a manter a disciplina da Unitas Fratrum, e ele deu à eles a visão de levar o evangelho para os cantos mais distantes do mundo. Em 13 de agosto de 1727, marcou a culminação de uma grande renovação espiritual para a Igreja Moraviana em Herrnhut, e em 1732 os primeiros missionários foram enviados para as Índias Ocidentais.

Moravianos na América

Os primeiros moravianos chegarem na América durante o período colonial. Em 1735 eles foram parte do Instituição Filantrópica de Oglethorpe em Geórgia. A tentativa de estabelecer uma comunidade em Savana não foi bem sucedida, mas eles fizeram um impacto profundo na vida do jovem John Wesley que tinha ido à Geórgia durante uma crise espiritual pessoal. Wesley ficou impressionado que os moravianos se mantinham calmos durante uma tempestade que estava assustando os marinheiros mais experientes. Ele ficou espantado com as pessoas que disseram não temer a morte, e voltando a Londres ele adorou com os moravianos na Capela Fetter Lane. Lá seu “coração foi estranhamente aquecido”.

Após o fracasso da Missão na Geórgia, os moravianos foram capazes de estabelecer uma presença permanente na Pensilvânia em 1741, na propriedade de George Whitefield. Os colonos moravianos compraram 500 hectares para estabelecerem o assentamento de Bethlehem em 1741. Logo, eles compraram os 5,000 hectares de Barony of Nazareth do Gerente de Whitefield, e as duas comunidades de Bethlehem e Nazareth se tornaram mais próximas vinculando sua agricultura e economia industrial.

Outro assentamento de congregações foi estabelecido na Pensilvânia, Nova Jersey e Mary Land. Eles construíram as comunidades de Bethlehem, Nazareth, Lilitz e Hope. Eles também estabeleceram as congregações na Filadélfia e no Staten Island em Nova York. Tudo foi considerado centros de fronteiras para a difusão do evangelho, particularmente na missão aos Nativos Americanos. Bethlehem foi o centro das atividades moravianas na América Colonial.

O Bispo Augustus Spangerberg conduziu uma parte para examinar uma área de 100.000 hectares de terra na Carolina do Norte, que veio a ser conhecida com Wachau depois de uma propriedade austríaca do Conde Zinzerdorf. O nome, mais tarde anglicizado para Wachovia, se tornou o centro de crescimento para a igreja da região. Bethabara, Bethania e Salem (agora Winston-Salem) foi o primeiro assentamento moraviano na Carolina do Norte.

Em 1857 as duas províncias americanas, Norte e Sul, se tornaram amplamente independente e expandiram. Bethlehem em Pensilvânia e Winston-Salem na Carolina do Norte se tornaram o quartéis generais das duas províncias (Norte e Sul).

A Província Sulista cresceu principalmente no Forsyth County, mas com o passar do tempo estabeleceram congregações em Charlott, Greensboro, Wilmington, Raleigh e Stone Mountain, Geórgia. Igrejas Moravianas na Flórida estão crescendo com a influência dos imigrantes da bacia do Caribe.

A Província do Norte expandiu com a influência dos imigrantes da Alemanha e Escandinávia para o centro-oeste no final do século XIX. Agora alcança ambas as costas do norte como Edmonton, Canada. Green Bay, Wisconsin, foi fundado por moravianos. Essa ampla extensão geográfica fez com que a província do norte fosse dividida em distritos orientais, ocidentais e canadenses.

Após a II Guerra Mundial, fortes impulsionadores para a extensão da igreja levaram a província do norte ao Sul da Califórnia (onde apenas uma missão indígena existia desde 1890) bem como alguns locais do leste, centro-oeste e canadense. A Província do Sul acrescentou numerosas igrejas na área de Winston-Salem, ao longo do Norte de Carolina e estendendo seu alcance para Flórida e Geórgia. Na Carolina do Norte, a Igreja Moraviana tem congregações em 16 estados, o Distrito da Columbia, e em duas Províncias do Canada. 

Uma Igreja Cristã Mundial

Sempre com espírito ecumênico, os moravianos estavam entre os primeiros membros do conselho nacional e mundial de igrejas. A Igreja estabeleceu um número de escolas na América, a mais importante dessas foi Salem Academy and College, Moravian College, Theological Seminary, e escolas preparatórias em Lilitz e Bethlehem. Em 1957 a Igreja mundial moraviana foi reorganizada em mais de uma dúzia de províncias semi-autônomas que continuam sendo parte de uma única igreja global. Um Sínodo de Unidade é realizado a cada sete anos para decidir assuntos que afetam toda a igreja moraviana.

Atualmente existem mais de um milhão de membros da Igreja Moraviana no mundo. A maioria deles vivem na Africa Oriental. Outra maioria de centros moravianos estão na bacia do Caribe (U.S. Virgin Islands, Antigua, Jamaica, Tobago, Suriman, Guyana, St. Kitts, e a Costa Miskito de Honduras e Nicaragua), Africa do Sul, Winston-Salem, e Bethlehem, Pa. Há agora 19 províncias da Unidade.
 
Embora os moravianos desempenharam um papel importante na história da colonização americana, a igreja no Norte da América conta com apenas 60,000 (incluindo Canada, Alasca, Labrador). Uma das razões da diferença na membresia entre os Estados Unidos e o resto do mundo é que os moravianos viram seu chamado distinto como trazer as boas novas do amor infinito de Deus aos mais pobres e mais desprezíveis do mundo.

Tradução: Tatiane Menezes
Revisão: Willy Menezes
Fonte: Fonte: http://www.moravian.org/the-moravian-church/history/

segunda-feira, 6 de março de 2017

O que é o fruto da vida do crente?


Quando Jesus falou sobre o fruto [ou frutos] que seus seguidores deveriam ter, a que tipo de resultado ele estava se referindo? É basicamente a resposta desta pergunta que eu gostaria de compartilhar neste breve texto. Primeiramente quero tratar sobre o que não são estes frutos.

            Geralmente cometemos a falha de observar os frutos por uma perspectiva errada e não poucas vezes confundimos os “critérios de avaliação”. Somos mais tendenciosos a nos impressionar com grandes sinais, carismas, dons e expressões que saltam aos nossos olhos. Queremos ver as coisas acontecendo e sentir o arrepio na pele. Porém, se tratando dos frutos que Jesus disse, esses não são os primeiros indicadores, tampouco o que os determina.

            Os frutos que Jesus espera de nós não são, primeiramente, expressão de autoridade, poder, milagre ou algum outro carisma. Pois o próprio Jesus disse, referindo-se a esse contexto: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” (Mateus 7:22.23) ou seja, é possível fazer tudo isso e não ser discípulo de Cristo.

            Dito isto, vamos pensar sobre o que seria então os frutos. Quando lemos o sermão do monte, Jesus estava ensinando sobre qualidades distintivas de um discípulo, ou seja, caráter, tais como humildade, mansidão, justiça, misericórdia e outros. Em outra ocasião ele diz: “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos. ” (João 15:8) e para Jesus, o “ser discípulo” estava relacionado a “negar a si mesmo” pois "...qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo." (Lucas 14:27) e isso indica viver a vida de Cristo, por isso, o fruto da vida do crente não é medido por ações extraordinárias ou seus feitos, mas por seu caráter ser o mais próximo do de Cristo. Neste sentido fica muito claro quando lemos Gálatas 5.22-23 falando sobre caráter e não sobre carisma quando trata sobre o fruto do Espírito. Jesus estava falando sobre ter um caráter transformado e não sobre grandes demonstrações de poder.

            Voltando à Mateus 7, após Jesus dizer “pelos seus frutos os conhecereis. ” (v.20) ele diz quem é o tipo de pessoa que produz bons frutos: “Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mateus 7:24) e aqueles a quem Jesus disse: “Nunca vos conheci” são os insensatos: “E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia” (Mateus 7:26) e estes não produzem bons frutos.

            Portanto, busquemos todos os dias ter um caráter semelhante ao de Cristo e não expressão de poder algum. Que sejamos mais parecidos com o homem prudente que ouve a palavra de Deus e as pratica. Certamente esta é uma obra que somente Cristo pode operar em nossas vidas, por isso, devemos clamar pela transformação graciosa todos os dias em nossas vidas. Sugestão de leitura: Mateus 7.15-29; João 15.16-20 e Gálatas 5.22-23.

Em Cristo,
Willy Menezes


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